Pular para o conteúdo
VoltarCuriosidades

Herança familiar: como evitar que o patrimônio encolha a cada geração

22/10/2026 05:004 min de leituraAtualizado há 3 horas

Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil.

Se a sua empresa é familiar, ou se você está pensando em como o patrimônio construído ao longo de anos vai passar para a próxima geração, um dado chama atenção: mesmo quando uma fortuna cresce, ela pode valer cada vez menos para cada herdeiro. É o que mostra uma simulação da Mardô Family Office, consultoria especializada em sucessão, que detalha como o crescimento do patrimônio e o crescimento da família nem sempre caminham juntos.

O exercício parte de uma situação hipotética: um patrimônio de R$ 400 milhões, com quatro herdeiros na segunda geração e 16 descendentes na terceira. Mesmo no cenário mais favorável, em que os ativos crescem 44,2% acima da inflação e chegam a R$ 577 milhões em 20 anos, a divisão entre 16 pessoas faz com que cada uma receba, em média, R$ 36,1 milhões. Esse valor equivale a apenas 9% do patrimônio original por pessoa. Ou seja: a família ficou mais rica no total, mas cada integrante ficou com uma fatia bem menor.

O que muda quando a família consome mais

O problema se agrava quando o consumo da família é alto. No chamado cenário-base, o patrimônio cai para R$ 156 milhões ao fim de 20 anos, o que representa R$ 9,8 milhões por descendente. Já no cenário adverso, os recursos simplesmente acabam no 14º ano. A diferença entre esses resultados não está apenas nos investimentos escolhidos, mas em quanto a família retira todo ano para manter seu padrão de vida.

Um dado da simulação ajuda a dimensionar esse impacto: reduzir as retiradas anuais de cada núcleo familiar de R$ 3,2 milhões para R$ 2,5 milhões elevaria o patrimônio disponível por descendente de R$ 9,8 milhões para R$ 15 milhões ao final de 20 anos. Essa economia evitaria R$ 72,4 milhões em retiradas acumuladas no período. Para você que administra um negócio de família, a lição prática é direta: o nível de consumo definido hoje influencia não só o patrimônio que será deixado, mas também o padrão de vida que os futuros herdeiros poderão sustentar.

O impacto da divisão entre herdeiros
R$ 577 mipatrimônio total em 20 anosno cenário mais favorável, partindo de R$ 400 milhões.
R$ 36,1 mipor descendenteapenas 9% do patrimônio original, dividido entre 16 herdeiros.
11%das empresas familiares têm plano de sucessãosegundo levantamento da Mardô.

Preparar herdeiros pode multiplicar o resultado

Um segundo modelo da Mardô investigou o que acontece quando a família prepara os herdeiros para assumir papéis ativos, seja administrando ativos, ocupando funções executivas, gerindo investimentos ou criando novos negócios. Os resultados variam bastante: o patrimônio final vai de R$ 162 milhões, numa simples transferência de bens sem preparo, até R$ 974 milhões, quando há integração plena da família combinada com um ciclo forte de novos empreendimentos. Nos cenários intermediários, com preparo parcial, o valor fica em R$ 301 milhões; com integração plena, R$ 570 milhões.

É importante entender que esses números não são garantia de retorno. São projeções baseadas em premissas da consultoria, não resultados observados no mercado. O empreendedorismo, por exemplo, só contribui de forma relevante quando há tempo suficiente para o negócio amadurecer: um empreendimento iniciado cedo tem mais chance de gerar valor do que outro criado perto do fim do período analisado. A Mardô estima que a contribuição dos novos negócios ao patrimônio poderia saltar de R$ 27 milhões para R$ 161 milhões caso o retorno dos empreendimentos bem-sucedidos dobrasse, e chegar a R$ 317 milhões com aportes maiores.

Por que isso importa para quem toca um negócio de família

Apesar dos valores envolvidos nesse tipo de transição, a sucessão ainda costuma ser tratada como algo a resolver só quando o fundador se afasta ou quando a herança precisa ser dividida. Segundo a Mardô, apenas 11% das empresas familiares analisadas pela consultoria têm um plano de sucessão formal. Isso não afeta apenas a continuidade do negócio: também compromete decisões sobre gestão dos ativos, divisão de responsabilidades e resolução de conflitos. Uma pesquisa global da PwC com empresas familiares mostrou que 81% das companhias consultadas não tinham mecanismos formais para resolver divergências entre os familiares.

Vale desfazer um mito comum: a estatística de que 70% dos negócios familiares não sobrevivem à transição entre gerações costuma ser citada como se fosse sinônimo de fracasso na transferência de riqueza. Mas ela mede apenas a continuidade da empresa, não o destino de todo o patrimônio da família. Uma família pode vender o negócio e preservar os recursos, ou manter a empresa funcionando e, ainda assim, comprometer a fortuna por más decisões financeiras.

Para Márcia Dolores, fundadora da Mardô, o ponto central está na diferença entre uma empresa familiar e uma família empresária, sendo a segunda um estágio mais avançado da primeira. Enquanto a empresa familiar tende a depender da presença do fundador para funcionar, a família empresária desenvolve estruturas próprias de decisão, com regras claras sobre quem administra o negócio, como os familiares participam e como os conflitos serão resolvidos. Se você lida com sucessão no seu negócio, o recado prático é este: planejar não é só definir quem vai herdar, mas preparar a família inteira, incluindo o quanto ela consome e como vai administrar o que recebe, para que o patrimônio não perca força a cada geração que passa.

Aviso: conteúdo informativo, produzido a partir de fontes públicas e reescrito pela nossa editoria. Não substitui orientação contábil ou fiscal personalizada. Tem uma dúvida sobre o assunto? Pergunte no portal.