Dívida pública deve subir até 2029 mesmo com ajuste fiscal, diz projeção
20/10/2026 05:004 min de leituraAtualizado há 2 horas
Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil.
Se você administra uma empresa e tenta entender para onde vão os juros nos próximos anos, há uma notícia que merece atenção: segundo projeções da Genial Investimentos, a dívida pública brasileira deve continuar subindo até 2029, mesmo que o governo consiga aprovar um ajuste fiscal considerado crível pelo mercado. Isso significa que, na melhor das hipóteses, o alívio nas contas públicas (e, por consequência, nos juros) ainda demora alguns anos para aparecer.
A dívida bruta do governo já está em R$ 11,1 trilhões, o equivalente a 82,9% do PIB em agosto, segundo dados do Banco Central. Esse percentual subiu 4,2 pontos no acumulado de 2026 até aquele mês, puxado principalmente pelos juros nominais. É esse ponto de partida que a Genial usa para construir dois cenários possíveis para o futuro do endividamento do país.
O que muda
No cenário que a Genial considera mais provável, com um ajuste fiscal crível, a dívida continuaria subindo nos próximos anos, chegando a 89,5% do PIB em 2029. Só a partir de 2030 ela começaria a recuar, fechando 2036 em 86%, um nível ainda mais alto do que o registrado hoje. Já no cenário de ajuste lento, sem uma regra fiscal capaz de sustentar a confiança do mercado, a dívida seguiria subindo sem parar, atingindo 107,2% do PIB em 2036.
A diferença entre os dois cenários não está apenas nos números das contas públicas, mas principalmente na credibilidade que o mercado atribui ao ajuste. Segundo Yihao Lin, economista da Genial, a credibilidade fiscal é a variável que mais pesa nessa conta, porque ela influencia diretamente as expectativas de juros futuros. Para ele, se o mercado acreditar numa nova regra fiscal, as condições financeiras podem melhorar antes mesmo de o ajuste produzir efeito completo nas contas públicas.
Ajuste fiscal crível
- Dívida sobe até 2029, atingindo 89,5% do PIB
- Recuo começa em 2030
- Em 2036, dívida em 86% do PIB
- PIB cresce 2,5% no longo prazo
- Selic chegaria a 7,5% em 2030
Ajuste lento, sem âncora fiscal
- Dívida sobe continuamente
- Em 2036, chega a 107,2% do PIB
- PIB cresce 2,1% no longo prazo
- Selic ficaria em 10% no longo prazo
A Genial também simula uma proposta de regra fiscal que vincularia o crescimento real dos gastos públicos ao nível de endividamento do país. Na prática, isso criaria um incentivo para o governo controlar a dívida ou mantê-la abaixo de um determinado patamar, já que, fazendo isso, ganharia mais espaço para aumentar gastos no futuro. Lin também destaca que uma regra clara serviria como referência para a sociedade cobrar do governo uma execução fiscal mais responsável, de forma parecida com o que aconteceu com o antigo teto de gastos, que, apesar das críticas, ajudou a melhorar a reação dos investidores justamente por ser simples e sinalizar convergência da dívida.
Quem é afetado
Esse cenário interessa a qualquer empresário que dependa de crédito, financiamento ou que simplesmente queira entender o ambiente econômico em que vai operar nos próximos anos. Juros mais altos por mais tempo significam custo de capital mais caro, crédito mais restrito e menor previsibilidade para investimentos de médio e longo prazo. A projeção mostra que, mesmo no cenário mais favorável, o ajuste fiscal tem um custo inicial para a atividade econômica: o PIB cresceria 1% em 2027, menos do que os 1,3% estimados no cenário de ajuste lento. A compensação viria depois, com crescimento de 2,5% no longo prazo contra 2,1% na alternativa mais gradual.
A diferença na Selic entre os dois cenários também é expressiva: 7,5% em 2030 no caso do ajuste crível, contra 10% no longo prazo caso o ajuste seja lento e sem credibilidade. Isso mostra o quanto a confiança do mercado nas regras fiscais pode impactar diretamente o custo do dinheiro para empresas e consumidores, independentemente da melhora efetiva do resultado primário do governo.
Como se preparar
Lin alerta que, sem credibilidade, mesmo uma melhora real no resultado primário (entre 1 e 1,5 ponto percentual do PIB) pode não ser suficiente para aliviar os juros futuros. Isso reforça que o fator decisivo não é apenas o esforço fiscal em si, mas a forma como o mercado interpreta esse esforço. Vale lembrar que essas são simulações, não previsões garantidas: dependem da aprovação de medidas no Congresso, da execução prática do ajuste e das condições macroeconômicas ao longo do caminho.
Diante desse cenário, o mais prático para o seu negócio é acompanhar de perto os sinais de credibilidade fiscal que o governo e o Congresso derem nos próximos meses, já que eles tendem a influenciar diretamente o custo do crédito e as condições de financiamento disponíveis para empresas. Revisar o planejamento financeiro considerando juros elevados por um período mais longo, mesmo em cenários mais otimistas, é uma forma de se proteger das incertezas que ainda cercam a trajetória da dívida pública brasileira.
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