De Vinho a Tacos de Hóquei, Entenda a Sobretaxa de 50% de Trump Contra o Canadá
O governo dos Estados Unidos formalizou uma tarifa adicional de 50% sobre um grupo específico de produtos importados do Canadá, com início marcado para 19 de agosto. A medida foi assinada pelo presidente Donald Trump por meio de três proclamações distintas e deve atingir cerca de 20 bilhões de dólares em mercadorias canadenses, segundo dados do próprio governo americano. Embora o Canadá esteja no centro da notícia, o episódio interessa a qualquer empresário brasileiro que acompanha o comércio internacional, porque mostra como decisões unilaterais dos Estados Unidos podem alterar de uma hora para outra as regras do jogo, mesmo dentro de acordos comerciais já consolidados.
O ponto que mais chama atenção é que a sobretaxa vale mesmo para produtos canadenses que cumprem todas as regras do acordo comercial entre Estados Unidos, México e Canadá, conhecido como USMCA. Ou seja: mercadorias que hoje entram nos Estados Unidos sem pagar nenhum imposto, por respeitarem as regras de origem do bloco, passarão a recolher 50% adicionais se estiverem na lista divulgada pelo governo americano. Isso na prática esvazia parte da proteção que o acordo oferecia a esses produtos específicos.
O que muda
A lista de produtos afetados é ampla e variada: inclui vinho, cerveja, destilados, cimento, móveis, piscinas, varas de pesca, sementes, roupas, perucas, tacos de hóquei e alguns derivados do leite, entre outros itens. Vale lembrar que nem toda a categoria de cada produto é atingida: a aplicação depende de códigos específicos definidos nos anexos das proclamações. Mesmo assim, o total de itens taxados representa uma fatia pequena do comércio entre os dois países, cerca de 5,2% dos 382 bilhões de dólares que os Estados Unidos importaram do Canadá em 2025, segundo cálculo da Reuters.
Também é importante entender que os 50% se somam a tarifas já existentes, não as substituem. Um produto que hoje paga 5% de tarifa regular pode passar a pagar 55% no total. Ficaram de fora dessa nova cobrança setores considerados sensíveis, como energia, potássio, pescados, minerais críticos, aeronaves civis e componentes aeronáuticos, além de produtos que já estão sujeitos a tarifas da chamada Seção 232, usada pelos Estados Unidos em áreas ligadas à segurança nacional.
Quem é afetado
A justificativa do governo americano é que o Canadá estaria discriminando produtos dos Estados Unidos em três frentes: automóveis, bebidas alcoólicas e laticínios. Segundo a Casa Branca, as importações canadenses de veículos americanos caíram 22% em um ano, e a compra de bebidas alcoólicas dos Estados Unidos por parte das províncias canadenses recuou 81% no mesmo período, após diversas regiões do Canadá suspenderem a comercialização desses produtos. No setor de laticínios, a disputa gira em torno da forma como o Canadá administra as cotas de importação de queijo, tema que já vinha sendo alvo de queixas americanas.
Para o consumidor final, o aumento de 50% não significa necessariamente um repasse automático nos preços. Esse custo pode ser dividido de formas diferentes ao longo da cadeia: o produtor canadense pode reduzir sua margem para manter competitividade, o importador ou varejista americano pode absorver parte do impacto, ou o valor pode ser repassado ao consumidor. Também existe a possibilidade de empresas americanas buscarem fornecedores alternativos, tanto dentro dos Estados Unidos quanto em outros países, o que pode abrir espaço para exportadores de outras nacionalidades, incluindo o Brasil, em categorias específicas atingidas pela medida.
Prazos
A cobrança começa às 0h01 no horário da Costa Leste dos Estados Unidos, no dia 19 de agosto. A base legal usada por Trump é a Seção 338 de uma lei tarifária americana de 1930, dispositivo que permite tarifas de até 50% contra países acusados de discriminar o comércio dos Estados Unidos. Segundo apurou a Reuters, esta é a primeira vez em quase um século que essa norma é aplicada, o que reforça o caráter incomum da decisão. A mesma lei também permite que o presidente suspenda, revogue ou altere as proclamações a qualquer momento, o que mantém a porta aberta para negociações, ainda que não exista um prazo formal estabelecido para isso.
Do lado canadense, o primeiro-ministro Mark Carney classificou a medida como uma violação do acordo comercial entre os três países e afirmou que as contramedidas do Canadá no setor automotivo apenas espelharam cobranças já feitas pelos Estados Unidos. Carney disse que seu governo apresentou propostas para resolver a disputa e modernizar o acordo, e sinalizou disposição para intensificar as negociações nas próximas semanas, mas até o momento não anunciou novas medidas específicas em resposta à tarifa de 50%.
Como se preparar
Para empresas brasileiras que exportam para os Estados Unidos ou negociam com parceiros americanos, o episódio serve como lembrete de que tarifas e acordos comerciais podem mudar rapidamente, mesmo entre países com tratados consolidados há anos. Se sua empresa depende de insumos importados, vende para o mercado americano ou compete com produtos canadenses em alguma das categorias listadas, vale acompanhar de perto os desdobramentos, especialmente se houver possibilidade de ganhar espaço como fornecedor alternativo em setores como bebidas, móveis ou laticínios. Segundo avaliação de especialistas do mercado financeiro, o impacto direto dessa tarifa específica sobre o investidor brasileiro é limitado, já que o foco das atenções por aqui está nas tarifas que os Estados Unidos aplicam diretamente a produtos brasileiros. Ainda assim, entender esse tipo de movimento ajuda a antecipar cenários e ajustar contratos, preços e estratégias de fornecimento antes que mudanças semelhantes afetem diretamente o seu setor.
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