Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil. Veja também o nosso guia de BPO Financeiro, atualizado a cada mudança de norma.
Se você acompanha o agronegócio na América Latina, vale entender uma mudança relevante que está acontecendo na Argentina: o crédito para produtores rurais está migrando para o dólar em ritmo acelerado, apoiado por plataformas digitais que tornam o financiamento mais rápido e flexível. O movimento tem impacto direto na competitividade do setor e pode servir de referência para quem opera negócios ligados ao agro na região.
O que está mudando no crédito rural argentino
Segundo o terceiro relatório da Nera, plataforma de crédito voltada ao setor agropecuário, as operações de crédito digital cresceram 40% em comparação com o mesmo período do ano anterior. O dado mostra que produtores e fornecedores estão adotando cada vez mais soluções digitais para financiar compra de insumos, animais e outras necessidades da produção.
O grande destaque, porém, é a preferência pelo dólar. No primeiro semestre de 2026, 81% das operações foram contratadas nessa moeda, um salto de 30 pontos percentuais em relação ao mesmo período de 2025. Isso significa que, de cada dez financiamentos, cerca de oito já são feitos em dólar, deixando o peso argentino em segundo plano nas decisões de crédito.
A explicação para essa diferença está nas taxas. Enquanto o crédito em dólar ficou em torno de 1,8% na média ponderada, o financiamento em pesos chegou a 34,6%, mesmo com uma queda de mais de 30% em ambas as moedas em relação ao ano anterior. Para o produtor, a conta é simples: pegar dinheiro emprestado em dólar sai muito mais barato, mesmo considerando o risco cambial embutido na operação.
Quem sente esse movimento na prática
O efeito mais direto recai sobre produtores rurais argentinos, que passam a estruturar suas compras de insumos e animais pensando na moeda americana como referência. Mas o fenômeno também afeta fornecedores do setor, que têm usado o crédito como ferramenta comercial: mais da metade dos financiamentos foi fechada por meio de linhas promocionais, algumas com taxas abaixo do mercado e, em casos de dólar, até com taxa zero, como incentivo para fechar vendas de insumos ou animais.
Esse modelo de "crédito embutido na compra" facilita a vida do produtor, que consegue condições melhores já no momento da negociação, sem precisar buscar financiamento separadamente. Na prática, isso melhora o fluxo de caixa e reduz burocracia, algo que interessa a qualquer gestor rural, independentemente do país onde opera.
Outro ponto que chama atenção é como os prazos de pagamento acompanham o calendário agrícola. Mais da metade dos créditos, 54%, foi contratada com prazo de 12 meses, alinhado ao momento da colheita. Em dezembro, cresceu o uso de prazos de 270 dias, reflexo do avanço do milho tardio, cuja colheita ocorre mais tarde no ano. Isso mostra um financiamento cada vez mais ajustado à realidade prática da lavoura, e não um modelo genérico e engessado.
O papel das garantias e da tecnologia
Além da moeda e dos prazos, chama atenção o uso de produtos físicos como garantia. No semestre analisado, mais de 260 mil toneladas de grãos, entre milho, soja e trigo, foram usadas como lastro para operações de crédito. Isso reduz a dependência de garantias tradicionais e amplia o acesso ao financiamento para quem tem produção, mesmo sem outros ativos disponíveis.
Segundo executivos da Nera, o próximo passo dessa transformação passa pela combinação de crédito, dados e inteligência artificial. A ideia é usar tecnologia para conhecer melhor o perfil de risco de cada produtor, oferecer crédito de forma personalizada e integrar o financiamento diretamente às etapas de compra e venda. Para quem gerencia um negócio rural, o recado é claro: cada vez mais o acesso a crédito vai depender de dados bem organizados e de relacionamento digital com plataformas financeiras, não apenas do histórico bancário tradicional.
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