Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil.
Você já deve ter ouvido falar da Evergrande, a gigante imobiliária chinesa que virou símbolo de crise. Agora o capítulo final dessa história chegou: Hui Ka Yan, fundador da companhia e que já foi o homem mais rico da Ásia, foi condenado à prisão perpétua por um tribunal chinês. Ele também perdeu todos os seus bens pessoais e seus direitos políticos para o resto da vida. Mais do que uma notícia sobre um bilionário caído, o caso é um retrato didático de como dívida mal administrada pode destruir até os negócios mais bem-sucedidos, algo que interessa direto a qualquer empresário que financia seu crescimento com crédito.
Como tudo começou
Hui nasceu em uma área rural da China e começou a vida profissional como técnico em uma siderúrgica. Em 1996, fundou a Evergrande, uma incorporadora que apostou em um modelo simples: comprar terrenos, construir rapidamente e vender a preços competitivos, usando dívida para financiar cada nova etapa da expansão. Enquanto a urbanização chinesa criava demanda constante por moradias, essa fórmula funcionou muito bem. A empresa cresceu até se tornar a maior incorporadora da China por vendas, registrando cerca de US$ 100 bilhões em vendas anuais em 2020.
O sucesso do negócio elevou Hui ao topo das listas de bilionários. Em 2017, com a forte valorização das ações da Evergrande na Bolsa de Hong Kong, seu patrimônio chegou a um pico de US$ 45,3 bilhões, tornando-o o homem mais rico da Ásia, à frente de nomes como Jack Ma. Mas essa fortuna não estava em dinheiro guardado no banco: ela era, em grande parte, o valor que o mercado atribuía à sua participação na empresa. Essa característica seria decisiva mais adiante.
A dívida que sustentava tudo
O mesmo mecanismo que impulsionou o crescimento da Evergrande também era sua maior fragilidade. A empresa dependia de novos empréstimos para comprar terrenos e tocar novos projetos, contando com a venda dos imóveis para gerar caixa e pagar essas dívidas. Esse ciclo só funciona enquanto há compradores suficientes, os preços seguem em alta e os credores continuam dispostos a financiar. Quando o mercado imobiliário chinês perdeu força, essa engrenagem travou.
Em 2021, a Evergrande deixou de honrar compromissos no exterior, dando início a uma crise de liquidez que se espalhou por bancos, fornecedores, investidores e até compradores de imóveis que haviam pago por unidades ainda não entregues. A dívida acumulada, que chegou a mais de US$ 300 bilhões, transformou a empresa em um dos principais símbolos da crise imobiliária chinesa. As ações despencaram e, com elas, praticamente todo o patrimônio pessoal de Hui, que estava concentrado na própria empresa.
O desfecho: liquidação e condenação
Em 2024, um tribunal de Hong Kong determinou a liquidação da Evergrande, depois de anos de negociações frustradas com credores. Hui, que já estava sob custódia havia anos, respondia a um processo criminal na China e se declarou culpado, em abril, de oito acusações, entre elas fraude na captação de recursos, uso indevido de fundos, tomada ilegal de depósitos públicos e suborno. A sentença desta quinta-feira (20) confirmou a prisão perpétua, o confisco de todos os seus bens e a perda vitalícia de direitos políticos. O tribunal de Shenzhen também aplicou multas bilionárias em yuans contra o grupo Evergrande e sua divisão imobiliária, apontando que as práticas da empresa e de seu fundador provocaram perdas econômicas relevantes e desorganizaram o mercado imobiliário chinês.
Para o empresário brasileiro, o caso Evergrande funciona como um alerta prático sobre os limites de crescer usando dívida como principal motor. Concentrar patrimônio pessoal no valor de mercado da própria empresa pode multiplicar ganhos na alta, mas amplifica perdas quando o cenário vira. Manter uma estrutura financeira equilibrada, com fôlego para atravessar momentos de menor demanda ou crédito mais caro, é o que separa negócios que sobrevivem a ciclos ruins daqueles que quebram junto com eles. A história de Hui Ka Yan mostra, em escala bilionária, um risco que vale para empresas de qualquer tamanho: crescer rápido demais com dívida, sem margem de segurança, pode custar muito mais do que apenas dinheiro.
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