Caneta que detecta câncer em 10 segundos: entenda a tecnologia brasileira
08/09/2026 05:004 min de leituraAtualizado há 2 horas
Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil.
Uma invenção brasileira está mudando a forma como cirurgias oncológicas podem ser conduzidas. A pesquisadora Livia Eberlin, formada pela Unicamp e hoje professora nos Estados Unidos, desenvolveu um dispositivo capaz de identificar, ainda durante a cirurgia, se um tecido é saudável ou cancerígeno. O processo leva cerca de 10 segundos e dispensa biópsia ou envio de amostra ao laboratório, com precisão de 96,5%. Embora o avanço seja da área da saúde, ele interessa também a quem gestiona negócios: mostra como pesquisa aplicada, empreendedorismo e captação de recursos podem transformar uma ideia em produto com potencial global.
Como funciona a tecnologia
O dispositivo, batizado de MasSpec Pen, funciona de forma simples na teoria, mas sofisticada na execução. Ao encostar no tecido humano, a caneta libera uma gota d'água que absorve moléculas daquele tecido e as envia para análise em um espectrômetro de massas. Com o apoio de inteligência artificial, o sistema indica se há ou não células tumorais naquela amostra. Segundo Livia, essa informação simplesmente não existia dentro da sala de cirurgia antes da invenção, e agora chega de forma mais rápida, precisa e segura para quem está operando o paciente.
A tecnologia já avançou bastante desde sua criação. Ela passa por seis testes clínicos em hospitais dos Estados Unidos, incluindo o maior centro oncológico do mundo, além de ser testada no Brasil pelo Hospital Israelita Albert Einstein e pela própria Unicamp. No Brasil, já está validada para cirurgias de pulmão, tireoide e boca. Nos EUA, está na reta final de validação para câncer de pulmão e de mama, caminhando para ser submetida à análise do FDA, o órgão de vigilância sanitária americano.
Da bancada de laboratório ao empreendedorismo
A trajetória de Livia mostra um caminho pouco comum entre cientistas: o de transformar uma descoberta em negócio. Após publicar um artigo científico sobre a tecnologia em 2017, ela viu o que descreve como uma explosão de interesse pelo tema. Dois anos depois, fundou uma startup para comercializar o sistema, hoje vendido como equipamento de pesquisa. Ela conta que tem gostado tanto de empreender que já cogita deixar o laboratório para se dedicar mais a essa frente. Na visão dela, pesquisadores, principalmente mulheres, precisam assumir também o papel de vender as próprias ideias, e não apenas produzi-las.
Esse movimento de captação de recursos foi essencial para o avanço dos testes clínicos, que tiveram uma pausa de dois anos durante a pandemia, mas retomaram o ritmo depois disso. Para empresários e gestores, o caso ilustra como parcerias entre pesquisa acadêmica, hospitais e capital privado podem acelerar a saída de um projeto do papel para o mercado, mesmo em um setor de barreiras regulatórias altas como o de dispositivos médicos.
Reconhecimento e planos de expansão
O trabalho de Livia já rendeu reconhecimento internacional ao longo dos anos: um prêmio da L'Oréal para cientistas mulheres em 2014, entrada na lista Forbes Under 30 dos Estados Unidos em 2015, e a bolsa para "gênios" da Fundação MacArthur em 2018. Mais recentemente, ela também apareceu na lista Forbes Mulheres Mais Poderosas do Brasil de 2026. Segundo a cientista, a tecnologia pode ainda ir além do câncer, com potencial para detectar tumores benignos e endometriose.
Os planos de expansão incluem novas versões do dispositivo, como uma caneta voltada especificamente para câncer de boca. Livia destaca que se trata de um equipamento acessível, o que abre espaço para beneficiar pacientes e cirurgiões em diferentes países, não apenas em centros médicos de ponta. Para o setor de saúde e para investidores atentos a inovação, o caso reforça que soluções desenvolvidas por pesquisa brasileira têm capacidade de competir e ganhar espaço em mercados internacionais altamente regulados.
A trajetória também carrega uma mensagem sobre superação de barreiras. Livia relata ter enfrentado preconceito por ser mulher latino-americana em ambientes acadêmicos de prestígio, além de julgamentos por conciliar maternidade e carreira científica em um momento decisivo de seu trabalho. Apesar disso, seguiu à frente do projeto até vê-lo ganhar validação clínica em dois países e repercussão que extrapolou o meio científico, incluindo aparição em uma série de TV americana. É um lembrete de que inovação com impacto real muitas vezes exige insistência diante de quem duvida da ideia antes dela provar seu valor.
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