Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil. Veja também o nosso guia de Trabalhista e Folha, atualizado a cada mudança de norma.
Uma mudança de comando em uma das vias mais importantes do comércio mundial pode parecer distante da realidade de quem gerencia um negócio no Brasil, mas vale a atenção de qualquer empresário que dependa de logística internacional, importação ou exportação. Ilya Espino de Marotta assumiu recentemente a administração do Canal do Panamá, tornando-se a primeira mulher a ocupar o cargo. Mais do que um fato histórico, essa troca de liderança acontece em um momento delicado, com desafios que envolvem clima, infraestrutura e capacidade operacional, temas que afetam diretamente o custo e o prazo de transporte de mercadorias pelo mundo.
Por que isso importa para o seu negócio
O Canal do Panamá é responsável por movimentar entre 3% e 5% de todo o comércio mundial, conectando 180 rotas marítimas e 1.920 portos em 170 países. Isso significa que boa parte dos produtos que chegam ao Brasil ou saem daqui para outros continentes pode, em algum momento, passar por essa via. Qualquer restrição na operação do canal, como redução no número de travessias ou no tamanho dos navios permitidos, tende a gerar atrasos e aumento de custos no frete internacional, o que impacta preços de insumos, matérias-primas e produtos importados.
Espino de Marotta tem mais de 40 anos de experiência no Canal e liderou a expansão inaugurada em 2016, que criou uma terceira via capaz de receber navios com até três vezes mais carga. Essa ampliação já responde por mais da metade das receitas do canal atualmente. Agora, sua gestão precisa lidar com um problema crescente: a falta de água suficiente para manter a operação em ritmo normal.
O desafio da água e seus efeitos práticos
O funcionamento do Canal depende diretamente de chuvas e de dois lagos artificiais, Gatún e Alhajuela, que armazenam a água usada nas eclusas. Anos de seca ligados ao fenômeno El Niño já obrigaram a reduzir o número de travessias diárias, hoje em 34, ante uma média de 36, e o calado dos navios (a parte que fica submersa), atualmente em 48 pés, contra o máximo de 50 pés. Entre maio e agosto deste ano, o déficit de chuvas na região chegou a 34%, com previsão de piora entre janeiro e abril.
Para tentar resolver esse gargalo de forma duradoura, está em andamento o projeto do lago de Río Indio, um novo reservatório orçado em US$ 1,5 bilhão, com previsão de garantir água por 50 anos tanto para o Canal quanto para milhões de moradores do Panamá. A obra deve começar entre 2028 e 2031, com entrada em operação prevista para 2032, mas já enfrenta resistência de comunidades rurais que seriam afetadas pela inundação necessária.
Além da questão da água, a nova administradora tem outra frente de trabalho: diversificar as fontes de receita do Canal. Segundo ela, a infraestrutura de trânsito de navios "tem um limite", por isso o Panamá aposta em se firmar como centro logístico. Hoje, 72% dos navios porta-contêineres que passam pelo Canal também utilizam um dos cinco portos ao redor da via. Estão em fase de pré-qualificação novos projetos: dois portos, com investimento estimado de US$ 2,6 bilhões, um gasoduto de pelo menos US$ 4 bilhões, e um corredor logístico, todos com potencial de aumentar em até 25% as receitas da operação.
Para empresas brasileiras que dependem de comércio exterior, esse movimento de expansão pode significar, no médio prazo, mais opções logísticas e maior capacidade de escoamento de cargas pela região. Ao mesmo tempo, a atenção ao problema da água reforça um alerta: eventos climáticos extremos já afetam infraestruturas estratégicas globais, e isso pode se traduzir em oscilações de prazo e custo no transporte internacional, algo que vale acompanhar ao planejar importações ou exportações.
Por fim, a gestão de Espino de Marotta também terá de lidar com uma onda de aposentadorias dentro da organização, o que ela descreve como desafio e oportunidade ao mesmo tempo. Fortalecer as equipes responsáveis pelos quatro grandes projetos (o reservatório, os portos, o gasoduto e o corredor logístico) será determinante para garantir que o Canal continue funcionando com eficiência nos próximos anos, algo que interessa diretamente a qualquer negócio que movimente mercadorias pelo mundo.
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