Fonte: Contábeis · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil. Veja também o nosso guia de BPO Financeiro, atualizado a cada mudança de norma.
Se você lidera uma equipe ou administra uma empresa, provavelmente já percebeu sinais de que algo está pressionando o desempenho dos colaboradores. Não é só impressão: dados recentes mostram que o endividamento das famílias brasileiras atingiu níveis expressivos, e esse cenário tem relação direta com produtividade, faltas e até com perdas dentro das próprias operações. Entender os números por trás desse movimento ajuda você a antecipar problemas e agir antes que eles cheguem ao caixa da empresa.
O Brasil chegou a 83,5 milhões de pessoas negativadas, segundo dados da Serasa, em um momento em que a taxa básica de juros segue em 14,25% ao ano. Esse combo de juros altos e inadimplência elevada cria um ambiente propício para que trabalhadores busquem crédito para fechar as contas, muitas vezes sem perceber o peso acumulado de diferentes tipos de dívida sobre o salário.
O que muda no crédito dos trabalhadores
Uma das novidades que ganhou força foi o Crédito do Trabalhador, disponível desde março de 2025 para cerca de 47 milhões de empregados com carteira assinada. A contratação acontece pela Carteira de Trabalho Digital, com autenticação pela conta Gov.br, o que tornou o acesso mais simples. Como resultado, o consignado privado passou a representar 47% da carteira das fintechs de crédito, um salto em relação aos 40% registrados antes. Só em 2025, essas instituições concederam R$ 53,8 bilhões em crédito, alta de 51% na comparação com o ano anterior.
É importante lembrar que a lei limita o desconto do consignado a 35% do salário líquido do trabalhador, conforme a Lei nº 10.820/2003. Na prática, isso significa que existe um teto legal para essa modalidade específica de empréstimo. Porém, esse limite não conta a história toda: outros descontos, como coparticipação em plano de saúde, faltas, atrasos, pensão alimentícia e benefícios internos, somam-se à conta e podem reduzir bastante o quanto sobra no bolso do colaborador no fim do mês. Além disso, muitos empregados também têm empréstimos pessoais com bancos e fintechs que não entram no cálculo da margem consignável, o que amplia ainda mais o comprometimento real da renda.
Apostas online entram na equação
Outro fator que vem chamando atenção de especialistas é o crescimento das apostas esportivas online. O Banco Central já havia identificado, em 2024, que as apostas passaram a ocupar uma fatia maior do orçamento das famílias de menor renda. Em 2025, o setor movimentou entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões por mês, e a arrecadação tributária relacionada a essas plataformas saltou de R$ 2,2 bilhões para R$ 4,5 bilhões nos quatro primeiros meses de 2026, na comparação com o mesmo período do ano anterior. Com a Copa do Mundo de 2026 no horizonte e o aumento esperado nos investimentos publicitários do setor, a tendência é que esse movimento continue crescendo, o que reforça a necessidade de atenção por parte das empresas.
Quem é afetado e como isso aparece no dia a dia da empresa
Os reflexos desse cenário já aparecem em pesquisas sobre o ambiente de trabalho. Um levantamento da SalaryFits, empresa do grupo Serasa Experian, mostra que 66% dos trabalhadores relatam mais estresse por causa de dívidas, 47% sentem exaustão física e 33% percebem queda na própria produtividade. Dados da CNDL/SPC Brasil vão na mesma direção: 61% dos inadimplentes afirmam que o endividamento prejudica o desempenho profissional, e 80% relatam impacto na saúde física ou mental.
Esse desgaste não fica restrito ao comportamento individual do colaborador. Um estudo da Abrappe em parceria com a KPMG apontou que o varejo brasileiro teve R$ 42,1 bilhões em perdas operacionais e furtos em 2025, sendo que furtos internos respondem por uma fatia entre 8% e 10% desse total. A pressão financeira sobre os trabalhadores é citada como um dos fatores observados nas análises sobre prevenção de perdas, o que reforça que a saúde financeira da equipe deixou de ser um assunto pessoal e passou a interessar diretamente à gestão de riscos da empresa.
Diante desse conjunto de informações, fica claro que o tema já não pode ser tratado como algo distante da rotina corporativa. Empresas que acompanham de perto a situação financeira dos seus times, oferecem orientação sobre uso consciente do crédito e ficam atentas a sinais de endividamento excessivo tendem a reduzir custos indiretos, como afastamentos, queda de produtividade e até perdas internas. Se sua empresa ainda não tem esse assunto na pauta da gestão de pessoas, este é um bom momento para incluir, especialmente com o crescimento contínuo do crédito consignado e das apostas online no radar dos próximos meses.
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