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Altograno: a farinha italiana que quer virar novo ingrediente de mercado

23/08/2026 05:004 min de leituraAtualizado há 10 dias

Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil.

Um grupo italiano que fatura 1,5 bilhão de euros processando trigo para a maioria das massas vendidas na Itália decidiu mudar de estratégia. Em vez de continuar disputando preço em um mercado de commodities, a Casillo apostou em um novo tipo de farinha, batizada de Altograno, que promete mais proteínas e fibras que a farinha tradicional. A ideia é sair do jogo de margens apertadas e se tornar parceira estratégica de outras marcas na criação de produtos.

O que muda

Historicamente, o processo de moagem do trigo sempre separou duas partes: a farinha, usada para massas e pães, e o farelo, destinado à alimentação animal. A porção mais nutritiva do grão, o chamado gérmen, era descartada nesse processo porque seu óleo fica rançoso rapidamente, o que prejudicaria a conservação da farinha. A Casillo resolveu esse problema retirando o óleo do gérmen antes de reincorporá-lo à farinha, criando um concentrado estável de proteínas e fibras que pode ser conservado por até 12 meses, o mesmo prazo de uma farinha comum.

O resultado é vendido como uma categoria nova de produto: nem farinha refinada tradicional, nem integral. Segundo a empresa, o Altograno entra na mistura final em proporções de 25% para massas e 30% para doces, sem o gosto "de papelão" normalmente associado a produtos integrais. O óleo retirado do gérmen também não é descartado: vira um subproduto próprio, rico em vitamina E, ampliando o aproveitamento do grão.

Quem é afetado

Para quem vende ou fabrica produtos de panificação e massas, a novidade indica um caminho de diferenciação em um mercado que a própria Casillo reconhece como estável e de baixo crescimento em volume. O mercado italiano de farinhas para panificação movimenta entre 1,3 bilhão e 2 bilhões de euros por ano, mas sem grande expansão. Isso empurra fabricantes a buscar valor agregado em nichos como farinhas especiais, exatamente onde a empresa está mirando.

A estratégia já aparece em parcerias comerciais. A Strapasta, da marca Garofalo, é produzida com Altograno, e em abril a Casillo fechou acordo com a Puratos Italia, braço local de uma gigante belga que fatura 3,7 bilhões de euros distribuindo ingredientes para padarias e confeitarias. Esse tipo de aliança é o caminho escolhido para o ingrediente ganhar escala: entrar na composição de produtos de terceiros, e não necessariamente ser vendido diretamente ao consumidor final.

O Altograno em números
50%meta de margem até 2030participação esperada dos novos produtos inovadores na rentabilidade do grupo.
R$ 87,98 milhõesinvestimento no Agrifood Hubnovo centro de pesquisa em Corato, com incubadora de startups, previsto para setembro.
12 mesesprazo de conservaçãomesma durabilidade de uma farinha tradicional, resolvendo o problema histórico do gérmen rançoso.

O que ainda falta comprovar

Apesar do discurso comercial forte, que compara o produto a fenômenos como Nutella e Red Bull, as evidências científicas sobre os benefícios do Altograno ainda são preliminares. Um estudo da Universidade de Bari, feito em parceria com a Casillo, testou uma massa produzida com o ingrediente para avaliar efeitos sobre colesterol e alterações metabólicas em um grupo específico de pacientes. Os resultados mais aguardados devem ser divulgados em dezembro. A lógica nutricional (mais fibra e proteína, menos carboidrato) é considerada plausível por especialistas, mas comprovar benefícios clínicos reais ainda depende de mais pesquisa.

Outro ponto sensível é a origem da matéria-prima. As fichas técnicas do Altograno indicam que o trigo usado pode vir tanto da União Europeia quanto de fora dela. A empresa justifica que a Itália não produz trigo suficiente para abastecer toda a produção de massas do país, o que pode gerar questionamento entre consumidores que associam o produto a um símbolo genuinamente italiano.

Como isso pode inspirar negócios no Brasil

Para empresários brasileiros do setor de alimentos, o caso da Casillo mostra um caminho concreto de como sair da guerra de preço em commodities: investir em processo e reaproveitamento para transformar um subproduto em um novo produto de maior valor agregado. A empresa não criou uma nova matéria-prima, apenas mudou a forma de processar o que já existia, e isso abriu espaço para parcerias, novas linhas de receita e uma meta ambiciosa de dobrar a relevância da inovação na margem do negócio até 2030. É um lembrete prático de que ganhos de rentabilidade nem sempre vêm de vender mais, mas de vender diferente.

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