Ajuste fiscal no Brasil: por que gastar menos pesa mais que subir impostos
20/08/2026 15:164 min de leituraAtualizado há 13 dias
Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil.
Um dos principais economistas do país, Mansueto Almeida, ex-Secretário do Tesouro Nacional e hoje economista-chefe do BTG Pactual, deu um recado direto sobre os rumos da economia brasileira: o problema fiscal não vai ser resolvido com mais impostos. Segundo ele, o caminho é controlar o crescimento das despesas públicas. Essa discussão, embora pareça distante do dia a dia da sua empresa, tem efeito direto sobre algo que todo empresário sente no bolso: o nível dos juros.
Almeida participou de um painel no TRX Day, evento organizado pela TRX Investimentos, e defendeu que aumentar a carga tributária não resolve o problema estrutural das contas públicas. Para ele, o verdadeiro desafio é conter o ritmo de crescimento dos gastos do governo. Se isso acontecer, os juros podem voltar a patamares mais baixos, como os observados há alguns anos, o que favoreceria a valorização de empresas e também do setor imobiliário.
Por que isso importa para o seu negócio
Juros altos encarecem o crédito, dificultam investimentos e reduzem o consumo. Quando o governo gasta mais do que arrecada de forma persistente, o mercado exige taxas de juros maiores para financiar essa diferença, o que acaba puxando os juros de toda a economia para cima, inclusive os que você paga para financiar sua empresa. Por isso, segundo Almeida, resolver o problema fiscal pelo lado do controle de gastos, e não pelo aumento de impostos, é o que pode abrir espaço para juros mais baixos e um ambiente melhor para investir e crescer.
O economista contou que conversas recentes com representantes da área econômica do Governo Federal mostram uma preocupação real com o tema fiscal. Segundo ele, há um entendimento de que não será possível repetir, nos próximos anos, o mesmo padrão de expansão de gastos visto recentemente, especialmente em programas sociais. A ideia, segundo Almeida, é que o próximo período exige outro tipo de prioridade: criar condições para juros baixos, retomada de investimentos e crescimento sustentado por ganhos de produtividade.
O tamanho do desafio fiscal
Os números ajudam a entender por que o tema é tão urgente. O Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias para 2027 prevê R$ 2,49 trilhões em despesas obrigatórias, contra apenas R$ 274,7 bilhões em despesas discricionárias, ou seja, mais de 90% do orçamento já está comprometido antes mesmo de o governo decidir onde investir. Isso reduz drasticamente a margem de manobra para políticas públicas e aumenta o risco de que, a partir de 2027, quando os gastos com precatórios voltarem a contar na meta fiscal, a máquina pública enfrente dificuldades para funcionar normalmente.
Além disso, há mais de vinte semanas o mercado financeiro projeta déficit primário de 0,50% do PIB neste ano e de 0,40% no próximo, o que reforça o ceticismo sobre a capacidade do governo de gerar superávit no curto e médio prazo. O Instituto Fiscal Independente vai além e afirma que seria necessário um superávit primário de 2,1% do PIB por ano para estabilizar a relação entre dívida pública e PIB, um esforço bem maior do que qualquer meta em discussão hoje, que mira apenas o déficit zero. Para a instituição, a situação exige um ajuste estrutural mais profundo, e não apenas medidas pontuais de curto prazo.
Esse cenário fiscal ganha ainda mais peso porque o debate sobre mudanças nas regras fiscais tem ficado em segundo plano durante o período eleitoral, já que é um tema pouco popular politicamente. A expectativa é de que sinais mais claros sobre o rumo fiscal só devem aparecer depois das eleições, com o novo mandato.
Para você, empresário, o recado prático é que o cenário de juros no Brasil está diretamente ligado à capacidade do governo de controlar seus próprios gastos, e não apenas de arrecadar mais. Acompanhar esse debate ajuda a entender por que o crédito segue caro e por que a perspectiva de queda relevante dos juros depende de decisões estruturais que ainda não foram tomadas. Manter o planejamento financeiro da empresa robusto, com fôlego para operar em cenários de juros elevados por mais tempo, continua sendo a postura mais prudente até que esse quadro fiscal fique mais claro.
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