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Aeroporto de Guarulhos: por que a qualidade piorou e o que muda até 2033

14/10/2026 05:004 min de leituraAtualizado há 1 hora

Fonte: Forbes Brasil · Síntese editorial da GL Inteligência Contábil.

Se você viaja com frequência ou depende da logística aérea para o seu negócio, talvez já tenha sentido na pele os problemas do aeroporto de Guarulhos, o maior terminal internacional do país. Por trás dos atrasos, filas e embarques feitos de ônibus está uma história de concessão, investimentos insuficientes e uma controladora privada em dificuldades financeiras. Entender esse cenário ajuda a explicar por que a situação não deve mudar da noite para o dia, mesmo com um novo pacote de obras recém-aprovado.

Por que a qualidade caiu tanto

Desde 2011, o Brasil adotou um modelo de concessão de aeroportos à iniciativa privada para dar conta do crescimento da demanda por viagens aéreas. Hoje são 72 aeroportos nessa condição, e o investimento privado no setor somou cerca de R$ 8,7 bilhões entre 2023 e 2025. O número de passageiros no país saltou de 90 milhões em 2011 para 130 milhões em 2025. Guarulhos é peça central nesse crescimento: foram 47,2 milhões de passageiros em 2025, com expectativa de chegar a 50 milhões em 2026.

O problema é que a infraestrutura não acompanhou esse ritmo na mesma proporção. A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) avalia a satisfação dos passageiros em diversos aeroportos do país, e Guarulhos recebeu nota 2,95, a única avaliação negativa do levantamento, bem abaixo da média nacional de 4,24. Mais do que a nota isolada, chama atenção a trajetória: em 2016 e 2017, apenas 6,7% dos critérios avaliados estavam fora do padrão. Em 2023, esse percentual saltou para 38,9%. Em 2024 e 2025, mesmo com menos critérios sendo avaliados, 30% continuaram abaixo do esperado.

Um dos gargalos mais citados é a falta de pontes de embarque suficientes, estruturas que permitem ao passageiro ir direto do terminal até o avião. Sem elas, parte dos passageiros precisa ser levada de ônibus até a aeronave, o que atrasa o embarque e reduz a eficiência operacional do aeroporto como um todo.

O que muda com a prorrogação da concessão

Para tentar resolver esses gargalos, a Anac aprovou, em novembro de 2024, a extensão da concessão de Guarulhos por um ano e quatro meses, levando o contrato até novembro de 2033. Em troca, a concessionária se comprometeu com cerca de R$ 1,4 bilhão em investimentos entre 2025 e 2029, que incluem dois novos píeres de embarque, ampliação dos pátios para estacionar aviões, novas pistas de táxi e melhorias em equipamentos de segurança.

Na prática, a ideia é ganhar capacidade sem depender de grandes obras de expansão física, já que o espaço disponível é limitado. Mais píeres significam mais portões de embarque; pátios maiores acomodam mais aeronaves em solo; e pistas de táxi adicionais ajudam os aviões a liberar mais rápido a pista principal, otimizando pousos e decolagens.

Antes do novo pacote

  • Fator Q (indicador de qualidade) em trajetória de queda na maior parte dos últimos anos
  • 14 de 36 critérios da Anac fora do padrão em 2023
  • Gargalo recorrente de pontes de embarque, com uso de ônibus para acessar aviões

Com a prorrogação até 2033

  • R$ 1,4 bilhão em investimentos previstos entre 2025 e 2029
  • Dois novos píeres de embarque e ampliação dos pátios de aeronaves
  • Novas pistas de táxi para agilizar pousos e decolagens

Vale explicar por que esse tipo de impasse acontece: contratos de concessão têm prazo determinado, mas os ativos de infraestrutura, como pistas e terminais, têm vida útil muito mais longa. Isso cria um desincentivo natural para o investidor fazer obras cujo retorno financeiro só aparece depois que o contrato já tiver acabado. Quanto mais perto do fim da concessão, menor o interesse em bancar projetos de longo prazo sem garantias contratuais de recuperação do capital investido.

No caso de Guarulhos, esse desafio se soma a um problema de governança e saúde financeira da controladora. A concessionária GRU Airport é controlada, em 51%, pela Grupar, formada pela Invepar (80%) e pela sul-africana ACSA (20%). Os outros 49% pertencem à estatal Infraero, que não participa da gestão. Por trás da Invepar estão três grandes fundos de pensão, Previ, Petros e Funcef, que juntos detêm 75,6% da holding e têm exposição indireta de cerca de 30,8% sobre a GRU Airport. Em junho de 2025, a Invepar precisou renegociar R$ 1,5 bilhão em dívidas para tentar evitar uma recuperação judicial, o que ajuda a explicar por que a capacidade de bancar novos investimentos e a qualidade da gestão viraram pontos de atenção.

Para quem depende do aeroporto de Guarulhos no dia a dia do negócio, seja para despachar cargas, receber clientes internacionais ou organizar viagens da equipe, o cenário pede atenção redobrada ao planejamento logístico nos próximos anos. O pacote de obras promete melhorar a operação até 2029, mas o histórico mostra que prazos contratuais e dificuldades financeiras da controladora podem atrasar entregas. Acompanhar os indicadores de qualidade divulgados pela Anac é uma forma prática de monitorar se as promessas de melhoria estão, de fato, se traduzindo em operação mais eficiente.

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