Receita reduz autuações, mas mantém R$ 221 bi em cobranças

Se você é empresário, precisa entender um dado que parece contraditório: a Receita Federal autuou muito menos empresas em 2025, mas isso não significa que o Fisco afrouxou a fiscalização. Pelo contrário. Um levantamento do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT) mostra que, mesmo com queda de 70% no número de autuações contra pessoas jurídicas na esfera federal, o valor total cobrado por todos os fiscos (federal, estaduais e municipais) somou aproximadamente R$ 349,1 bilhões em 2025, praticamente igual ao ano anterior. Isso quer dizer que a fiscalização ficou mais certeira: menos ações, mas mirando alvos com maior chance de gerar autuação relevante.
No total, foram 776.321 autos de infração em 2025, um crescimento de 18,7% em relação a 2024. Mas esse aumento geral esconde movimentos bem diferentes entre as esferas de governo. Na Receita Federal, o número de autuações contra empresas caiu de 57,6 mil para cerca de 17 mil. Já nos estados, o cenário foi o oposto: os autos de infração de ICMS mais que dobraram, saltando de 152.878 para 361.164, embora o valor cobrado tenha ficado estável, em torno de R$ 107 bilhões. Nos municípios, o número de autuações de ISS caiu, mas o valor total cobrado subiu, passando de R$ 19 bilhões para R$ 20,5 bilhões.
O que muda na prática
O principal fator por trás dessa mudança é a tecnologia. Os sistemas de fiscalização hoje cruzam informações de diferentes declarações, notas fiscais eletrônicas, operações financeiras e obrigações acessórias enviadas pela própria empresa. Segundo o IBPT, 62% dos autos de infração em 2025 tiveram origem exatamente nesse cruzamento eletrônico de dados. Na prática, isso significa que qualquer divergência entre o que você declara ao Fisco e o que aparece em outras bases (bancos, cartões, plataformas de venda online, notas eletrônicas) tem grande chance de ser detectada automaticamente, sem depender de uma fiscalização presencial.
Essa automação também explica por que a Receita Federal conseguiu reduzir o número de autuações sem perder eficiência: os auditores passaram a concentrar esforços nos casos com maior potencial de inconsistência, já pré-selecionados pelos sistemas. No setor aduaneiro, por exemplo, ferramentas digitais já analisam previamente a classificação fiscal de mercadorias, identificando possíveis erros antes mesmo de a fiscalização ser concluída. Ou seja, o volume de dados cruzados aumentou, e a triagem ficou mais inteligente.
Quais tributos concentram as cobranças
Entre os tributos com maior volume financeiro em autuações, o ICMS lidera, com cerca de R$ 107 bilhões, seguido pelo Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ), com R$ 99 bilhões, e pela CSLL, com aproximadamente R$ 38 bilhões. No recorte federal por setor econômico, a indústria de transformação foi a mais autuada, respondendo por R$ 40,3 bilhões (18,2% do total), seguida pela indústria extrativa (R$ 36,7 bilhões), comércio atacadista (R$ 29,9 bilhões), atividades financeiras e de seguros (R$ 17,1 bilhões) e atividades científicas e técnicas (R$ 13,4 bilhões). Se o seu negócio está em algum desses setores, vale redobrar a atenção com a consistência entre as informações fiscais e contábeis enviadas ao Fisco.
| Tributo ou esfera | Valor em autos de infração (2025) |
|---|---|
| ICMS (estadual) | R$ 107 bilhões |
| IRPJ (federal) | R$ 99 bilhões |
| CSLL (federal) | R$ 38 bilhões |
| ISS (municipal) | R$ 20,5 bilhões |
É importante deixar claro para sua empresa: receber uma autuação não significa que houve sonegação comprovada. O auto de infração indica que o Fisco identificou uma divergência, que pode ser desde um erro formal até uma diferença de interpretação sobre a legislação. Depois de autuada, a empresa pode apresentar defesa administrativa ou recorrer à Justiça, e em muitos casos os valores acabam sendo revistos, reduzidos ou até cancelados. Por isso, os números de bilhões em autuações representam créditos tributários constituídos, não valores definitivamente devidos.
Outro ponto que chama atenção no levantamento é a estimativa de sonegação no país. O IBPT calcula que as empresas possam estar deixando de declarar cerca de R$ 2,7 trilhões em faturamento por ano, o que representaria uma perda de arrecadação de R$ 508,5 bilhões. Ainda assim, o índice estimado de sonegação vem caindo nas últimas duas décadas: era de 39% em 2004 e está estabilizado perto de 10% desde 2020, tendo fechado 2025 em 9,9%. Isso reforça que o avanço tecnológico da fiscalização está, de fato, reduzindo o espaço para inconsistências não detectadas.
Como se preparar
Diante desse cenário, o recado para o seu negócio é claro: mantenha a escrituração fiscal e contábil alinhada com todas as informações que circulam eletronicamente, como notas fiscais, movimentações bancárias, operações de cartão e vendas em plataformas digitais. Qualquer descompasso entre essas fontes tem alta probabilidade de virar um alerta automático nos sistemas do Fisco. Vale também ficar atento às mudanças que a reforma tributária deve trazer, especialmente o split payment, mecanismo que separará automaticamente os valores de tributos no momento do pagamento das operações. Esse novo modelo deve mudar a forma como os créditos tributários são aproveitados e reduzir o incentivo a operações sem nota fiscal, já que manter os créditos vai depender do cumprimento correto das regras. Conte com o acompanhamento contábil especializado para revisar processos internos e reduzir riscos de autuação antes que eles apareçam nos radares da fiscalização.
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